*ismos

20 de agosto de 2010 at 23:25 (Política)

Vi num blog por aí alguém dizendo que não é marxista, nem dadaísta, nem existencialista nem nenhum ista. Não é assunto meu se o fulano em específico é isto ou aquilo em relação aos ismos, mas o fenômeno é que me interessa. Não são poucas as pessoas que manifestam seu desagrado aos ismos. São gritos de independência contra os rótulos e as identidades ideológicas. Bonito, né? São pessoas dizendo “sou um pensador independente! Leio o que me interessa e não me filio a ninguém!” Fiquei pensado então: por que não se afirmar com uma afirmação? Para qualquer um que já simpatizou com alguma idéia Nietszcheana uma negação cheira mal de longe, de muito longe. Cheira a ressentimento. Mas não vamos precipitar as coisas chamando todos por aí de ressentidos. Investiguemos.
Como marxista que sou (Sim eu falo que sou uma ista! Sou comunista também! E não como criancinhas!), me chama a atenção o fato de que quase todas as declarações de independência começam como uma declaração de não-marxismo. Sinceramente não me lembro de nenhuma que começasse com outro ismo. Será que os livre pensadores são livres só por não ser marxistas? Aí colocam uma lista de coisas depois do velho barbudo só pra não ficar feio? Começo a pensar que sim.
E por quê?
Tenho a impressão de que se você é marxista tem primeiro que citar uma lista de justificativas: não sou Stalinista, não como criancinhas, não sou a fovor de ditaduras, não sou um barbudo maconheiro que está há 20 anos na universidade… Depois disso tudo você pode dizer: eu leio Marx, mas a maioria dos marxistas é muito ruim, sou um leitor independente. Será que os nossos anti-istas não querem se opor a isso?
Pode ser, mas o que eu acho mesmo é que as coisas é um pouco mais profunda.
Vivemos quase no fim da história. Ela não acabou, mas quase não mais se acredita nela. Acho que nunca conheci alguém com menos de trinta com esperanças de transformações sociais efetivas para o mundo. Toda a geração de nascidos dos anos 80 pra frente tem no máximo perspectivas para as próprias vidas, em geral não muito animadoras. Não é a toa. Depois de 89 não houve nenhuma conjuntura revolucionária palpável no mundo. Antes no mínimo havia o fantasma de que o mundo como era conhecido se desmantelasse numa guerra Ocidente-Oriente. O fantasma do comunismo morreu como possibilidade histórica no imaginário comum, mas não morreu no inventário de monstros horripilantes.
Ao mesmo tempo, vivemos num país em que é feio dizer que se é de direita. Direita é a ditadura, é querer que as coisas fiquem sempre como estão. São poucos os corajosos a se afirmarem como tal.
Os que não são de esquerda de verdade, os que não têm nenhum ativismo muito explícito, sofrem em geral de culpa ou de ressentimento. Me perdoem se for um diagnóstico psicológico muito errado. São impressões quase inevitáveis. São muitos os decepcionados da Era Lula, são muitos os que um dia foram esquerda porque se opunham à ditadura e agora são órfãos do que se opor. Precisam justificar-se. Não sou de esquerda porque, bom… a esquerda é foda, né… Tem todos esses marxistas ortodoxos. Não sou ortodoxo! Até queria ser de esquerda, mas não tem espeço… Sou a fovor de transformações sem rupturas, pacíficas! Sou a favor do meio-ambiente. (A nova moda politicamente correta: você pode dizer que quer mudar o mundo e viver sua vida bem calmamente porque as conseqüências não vêm em menos de 20 anos, então você dorme tranqüilo pois fez a sua parte separando o lixo. O mundo não mudou? Claro, é uma ação de longo prazo. O aquecimento global é lento, mas destrutivo!)

Os nossos anti-istas (ou antiistas?) não são anti-ismos. São anti-um-ismo-específico. Mais que isso! São anti-posicionamento. São anti-tomar-lados. São anti-afirmação. São grandes nãos. São senso-comum e satus quo porque o que reina no nosso mundo é a passividade e a covardia. Para mim o que colabora com o estado das coisas de nada mais pode ser chamado do que de direita. Tenho um certo prazer em ouvir um “sou de direita!”. É um convite ao ódio, melhor do que ao sono. Soa a trincheiras sendo montadas. Trincheiras tẽm sua beleza. A imagem mais feia do mundo para mim é a de um zumbi, de pessoas andando por aí semi-mortas. Porque pra mim afirmação é vida e negação é morte. O definir-se pelo não-ser é ressentimento, é amargura.

Eu aceitaria um militante de qualquer causa falando não sou marxista. Acontece que a fatídica frase sempre sai da boca dos que gostam de dizer que não são nada politicamente. Afinal, ser algo politicamente se resume a ser comunista ou de direita? Parece que sim.
Não ser comunista é um aplacar do ressentimento, justificar a própria apatia.
Desafio aqueles que querem dizer que não são ismo a começar uma frase com “eu sou”!
Pela primeira vez o primeiro verbo que todo mundo aprende pela primeira vez na aula de português do colégio fez sentido! A revolução talvez esteja mais próxima quando virmos textos começados da maneira mais primária e mais simples já vista:
Eu sou… (quem começa?)

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