Disseram que era pra escrever poesia
Disseram que faz bem
No papel,
As angústias da alma
E tudo mais que dizem que é terapia
Acontece que poesia é coisa de bêbado
De bom humor
E de brincadeira
Tem um cara que disse
Que poeta finge
Finge que não sente a dor sentida
Diz-me então o que faz
O que sente a dor sentida
Esse aí não escreve não
Escrever é brincadeira
É jogar pro alto palavra
E chutar verso
Tristeza não brinca não meu senhor!
Tristeza é coisa séria!
Tristeza é coisa quieta que fica guardada no fundo da gente
Tristeza só finge que é palavra no analista
Analista é coisa séria
É dinheiro indo embora
Quem é que vai pagar
Pra não falar de coisa séria
Mas tristeza de verdade
Também coisa séria não é
Quem é que vai levar a sério
Um vivente que não é
Escrever, meu amigo,
É pra quem mente bem
Triste, triste mesmo
Virou ninguém
Poema de mensagem de texto e ônibus andante
Te amo que nem na estrada
A gente corre e fica com medo da freada
coração bate que nem martelo, de nervoso da curva fechada
A gente vai pra onde for
e quando chegar estica a perna e dá um abraço
Te amo que nem ouvir música no carro
Num sei pra onde eu to indo, mas o gostoso é do teu lado
I – Prelúdio – O mundo
O mundo estava em construção quando chegamos
Tudo era vermelho e brilhava ao sol
Era um barulho infernal
E o mundo subia sempre mais alto
A gente sentia uma certa agonia
(Era a subida, com certeza)
Umas borboletas no estômago que cismavam em voar pra fora da gente
E a gente vôa com o mundo subindo no elevador da pirâmide
O mundo lá em baixo é barulho
O mundo é sujeira e é amor
E a pirâmide fica cada dia mais bela
A gente quer pular
(Todos sabem, basta esquecer o chão que a gente não cai)
O pôr do sol é mais vermelho e mais emocionante com a fumaça
O contorno escuro dos guindastes e dos prédios
E as naves voam
Há rastros de fumaça branca refletindo
A luz que não chega lá em baixo
O mundo se construiu
Colocamos a vida em cada pedra
Em cada fogo
Em cada aço e carvão
A vida ficou cravada na terra
Ela está imóvel para toda a eternidade
O mundo sobe e vôa acima da escuridão
Lá em baixo a vida cria vida e mata a vida
Há algo de trágico na vida da escuridão
A escuridão se definha e se corrói
A paixão dos perdidos é a vida jorrando de uma ferida cheia de pus
E a violência é a beleza do mundo subindo pelas paredes
A vida do subterrâneo é explosão
A vida de quem faz a vida é o horror mais indizível
II – Tragédia
Eles criaram um belo mais que belo
A força é mais que a força de todos juntos
Somos mais potentes e mais humanos
E o mundo foge diante da grandeza do mundo
O super-homem chega queimndo a fumaça por entre os prédios
E sabe que passará
O mundo não lhe concede muito tempo
Queimará com a chama mais pura e invisível
Mataram o super-homem
A força acima da força
A inteligência acima da inteligência
Elas sabem como apagar o contraste sombrio, cor de quadrinhos
Do mundo vermelho pôr de sol
Negro cor de gente
Azul cor de sombra
Amarelo cor de cor, porque não há mais cor
A sabedoria daquele que vôa acima do sol quer chamas maiores que o sol
O vermelho acima da moldura negra
Matou aquele destinhado à vida efêmera
À paixão inumana da máquina viva
O sol acima deste mundo em podridão
Decidiu acertar a máquina do mundo
Matai o super-não-homem!
Ele não merece tomar nosso lugar!
Os astros hão de ser a vigilância eterna
O sol vai reger a terra por mil anos
E o mundo verá o homem depositar sob as pedras do mundo
A vida do homem