A monografia e um vaso de planta
Um texto sobre qualquer coisa deveria ser um texto sobre a gente, sobre quem está escrevendo. O que acontece quando quem está escrevendo não tem a menor idéia do que quer, do que tem pra dizer pro mundo? Ou melhor, talvez tenha muito a dizer, mas não da maneira que o mundo quer ouvir ou pode ouvir. Eu deveria escrever uma monografia sobre alguma coisa que me interessa, mas acontece que o que me interessa é dizer ao mundo que há coisas que só podem ser gritadas, que todo o modo de viver deste mundo faz a gente escrever monografias e trabalhar em escritórios e em lugares quadrados e que não é possível viver assim nem escrever com sinceridade em uma monografia, pois não se escreve com sinceridade se você só pode escrever em quadradinhos pequenos. Se a sinceridade anda em círculos em trapézios e silhuetas coloridas não é possível escrevê-la em quadrados, no máximo a gente tenta traduzir, aí distorce as formas e as cores – o mundo fica parecendo assim como a arquitetura dos anos 50 e o máximo de vida que a gente consegue colocar nele é um vaso de planta na janela. Nada contra os vasos de planta, mas eles parecem um pouco como um perdão mau dado pras consciências pesadas das pessoas que não podem mais viver no mato. Um vaso de planta nunca parece muito sincero, tem cara de família burguesa ou de enfeite de mau gosto numa casa meio fora de lugar, num apartamento pequeno com móveis baratos, uma tevê ligada e um cachorro latindo histericamente porque passa o dia preso em casa. A sinceridade num monografia é como um vaso de planta meio sem graça num apartamento sem graça de uma família média sem graça, é como se ninguém soubesse muito bem o que ela está fazendo ali, que diferença ela faz; ao mesmo tempo, todo mundo espera que esteja lá,é meio que parte da paisagem, e se não estiver, tudo bem, a paisagem vai ser tão igual que nem vão perceber se ela não estiver lá. Quando faltar, não vai fazer diferença, porque a paisagem dos apartamentos sem graça continua a mesma sem vasos de plantas, só que mais sem graça. Aí a gente encontra o tédio do lado de dentro e pensa em sair, mas dentro de casa é mais confortável: na rua é o tédio dos apartamentos quadrados mais o inóspito das janelas que não olham pra lugar nenhum – porque nenhuma janela quer ver nada de um mundo com janelas que não olham pra lugar nenhum – e mais o calor do sol de meio-dia multiplicado pelo concreto escaldante. Esse é o mundo do lado de fora dos quadrados das monografias, e todas as monografias preferem ficar dentro dos seus metros quadrado de tédio mediano de ideal burguês porque aqui dentro é mais confortável. E todas elas preferem não olhar pela janela nem escrever em letras que não sejam quadradas, porque todo mundo sabe que coisas quadradas são muito melhores de se encaixar em espaços quadrados. E a prudência diz que olhar pra fora é uma ousadia admirável, mas que sair andando por aí é absolutamente impossível, você com certeza será morto, pode não ser na porta de casa, mas será morto. Você pode sair de taxi com muito dinheiro de reserva e com o mapa na mão, mas o desconhecido não, nunca, o desconhecido é grande de mais, ele não cabe na monografia (é melhor deixar pra depois, guarda pro doutorado – como se um dia a gente fosse realmente chegar a ele, o desconhecido). Aí a gente escreve sobre a cama, no máximo o quarto porque é bem seguro – é um terreno conhecido – e finge que molhar uma planta todo dia, arrumar a cama e dar comida pro cachorro são prova de grande dedicação (arrumar a casa então!, isso é amor!), é um amor sincero, constante e seguro por uma vidinha sem graça que a gente finge ser importante pelos pequenos detalhes.
Que se foda a porra da planta na janela e a porra do quarto confortável e seguro! Que se foda a porra toda porque não é possível fazer uma monografia sincera se você tem paixão, a porra da forma quadrada, recortada, separada, ela não tem sinceridade, ela segue um caminho sempre já percorrido, com argumentos sempre já aceitos. Não é possível escrever com sinceridade se a sinceridade for dizer pra quem você é obrigado a falar que não é assim que se fala, que não é assim que se escreve nem que se pensa. Não é possível falar verdades dentro de um apartamento médio com janelas monótonas que não dão pra lugar nenhum, verdades só podem ser gritadas, cantadas ou pintadas, ou dançadas ou corridas, elas só podem ser fodidas do jeito mais sujo e cru possível. Não se fala verdades preso num quadrado que não se conecta com lugar nenhum: ele é cheio do falso amor burguês da planta na janela. E a aridez do mundo lá fora é o conforto do mundo aqui dentro e ninguém quer sair pra se encontrar lá fora, é feio de mais, dói de mais. É por isso que também não se encontra verdades no mundo quadrado do concreto do sol de meio dia, ele é só o inverso do quadrado macio do conforto monótono. Não adianta gritar do lado de dentro, ninguém te ouve lá fora, nem adianta gritar do lado de fora, a janelas são viradas pra dentro. E nem dá pra mandar cartas, o escrito nunca se conecta de verdade com o mundo real, ele fica lá de decoração, pra gente se sentir conformado e de consciência limpa por ter feito a confissão dos nossos pecados. Os livros são as nossas estrelinhas de bom comportamento.
Eu não quero estrelinhas nem quero ficar falando dentro das paredes, eu não quero falar com a sinceridade do vaso de planta. Só é possível gritar quebrando as paredes e cantar nas ruas e plantar plantas selvagens no teto e no chuveiro e correr por entre os monótonos quadrados burgueses com todo o desrespeito do mundo e fuder em todos os lugares possíveis, bem na frente do amor burguês, pra ensinar-lhe o que é o amor. Um texto só será verdadeiro se for um poema – só é uma pena que eu não sei escrever em verso. Então, pra quem ler isso, é só pensar que muda de linha de vez em quando – é que eu ainda não me acostumei com essa coisa de verdade.