Cidadão Kane. Mais um trabalho guardado e quase esquecido.
Mais uma vez a pedido do Wesley, resolvi postar um texto bem velhinho que escrevi pra uma disciplina beeem chatinha, acho que em 2008.
É sobre o Cidadão Kane.
Toda experiência humana é única, irreprodutível, incompreensível. É ao mesmo tempo compartilhável, interpretável, transmissível, representável e, acima de tudo, infinitamente capaz de afetar. Toda experiência se dá no tempo e se dissipa no tempo, mas também por ele se propaga. Toda experiência é a um mesmo tempo individualmente vivida e socialmente compartilhada. A experiência é ao longo do tempo revivida, modificada, revirada e desvirada.
Um texto não seria capaz de encerrar todos os matizes de uma experiência individual ou histórica, assim como não o seria um filme ou uma imagem, e o inverso é igualmente afirmável, nenhum filme ou fotografia, nenhuma experiência cotidiana seria capaz de reproduzir uma experiêcia-texto. Ainda assim, todas essas experiências (-texto, -imagem, -filme) dialogam entre si e com a experiência viva, instantânea e irreprodutível dos indivíduos e das sociedades.
Se for mesmo a História o estudo da experiência humana no tempo, se não for a busca de uma essência humana supostamente mais vital que seu próprio devir-experiência, então é nessa propulsão de modulações de experiências que sobrevivem ao tempo que encontramos nosso material de trabalho – nos filmes, nas imagens, nos textos, nos objetos e, porque não, nos sons e paladares.
Nos filmes modernos temos os documentos da vivência estética, moral, afetiva, ideológica moderna. Documentos, no entanto, que não são a vivência em si, a despeito de todo seu apelo de real: são uma transfiguração de momentos perdidos no tempo, moldados conscientemente com seus devidos propósitos e de sentidos compartilhados e comprtilháveis, sempre reprodutíveis e nunca vividos da mesma maneira. Os filmes são talvez a armadilha mais perigosa, pois nos fazem sentir como que numa máquina do tempo, e são o instrumento mais valioso, porque mais cheio de facetas. São eles mesmos experiências que passam no tempo, narrativas que, mesmo não lineares, têm sempre alguma temporalidade, ou muitas. Fazem viver sensações e criam, então, história, assim como permitem acessar sensações de outrem e fazem compreender, então, História.
Se isso se pode falar para todo filme, então o que se pensar sobre um filme, que além de uma história versa sobre a experiência de recriação de uma outra história? De fato muito mais do que cabe num texto. Ainda assim há muito o que falar para preencher muitos textos, nada que seja igual à vivência de assistir ao filme, mas também muito mais do que o assistir ao filme.
O Cidadão Kane é, dentre tantas outras coisas, a vivência em imagens e sons da modernidade e do Capital. É o coroar de uma possibilidade histórica talvez nunca de fato realizada, mas perfeitamente realizável que inaugura nova moral (falta dela na verdade), novo amor, novas formas de ter, novas formas de ser massa e ser indivíduo, tudo isso agenciado pela infinita fonte de dinheiro – dinheiro que tanto é capital quanto luxo pré-moderno, que existe para ser dispendido.
Charles Foster Kane é uma criatura indizível (o filme termina afirmando que nenhuma palavra seria capaz de traduzir a vida de um homem), o mais próximo que se pode chegar desse homem é a conclusão de que para ele o mundo deveria girar em torno de sua vontade – e de fato girava! – e que seu único sofrimento era perder aquilo que sua incrível sorte, junto com sua estranha vontade colocara-lhe nas mãos. Charlie é um produto do capital: como ele mesmo afirma, não seria uma pessoa tão incrível se não pudesse gastar como bem entendesse seu infinito patrimônio. Ele não era, no entanto capitalista, não vivia pelo dinheiro, não lhe dava valor algum, tinha-o como meio que jorrava de uma fonte infinita, não como fim.
Charlie é uma criança que teve a incrível sorte de poder gastas quanto quisesse em que quisesse, uma criança que nunca teve o azar de aprender a ser adulto, de aprender a conhecer sua limitação na existência do outro. Quando ama e dá presentes à amada, o faz para ser amado em retorno, quando defende o povo, o faz para ser por ele amado. Kane é o ápice da ética individualista, ele é seu próprio critério de valor, a ausência de moral. Ele só é possível no mundo moderno.
Kane é, no fim de sua história, um personagem trágico, ele perde algo que nunca poderia ser comprado: sua mulher, que “não podia fazer isso com ele”, deixa-o. Chega finalmente o limite de sua potência, a vontade de alguém que resolveu não lhe fazer a vontade. Ele foi em toda sua vida uma criança, perdeu apenas três vezes (um trenó, rosebud, uma eleição e sua segunda mulher), mas, como profetizou seu rival nas urnas, demorou para aprender sua lição e percebeu o limite de sua vontade apenas no fim da vida. Como criança, é ao mesmo tempo cruel e belo.
Essas mil faces de um personagem-experiência são construídas no filme não pelo desenrolar “realista” de cena por cena de sua vida e é aí que se encontra a riqueza do enredo: ele é a história de uma tentativa de reconstrução histórica que admite sua incapacidade de plena realização. É um acessar constante de experiências nunca completamente apreensíveis, mas que mantêm como que uma cadeia de contatos entre passado e presente modulando-se a cada nova experiência que se desenrola.
.apenas o fim
[Spoiler!!!]
Depois de ter tentado escrever um comentário para o texto da Bárbara sobre o não-visto filme .apenas o fim, depois de ter tentado escrever um texto sobre o comentário, depois de todas as desventuras possíveis com computadores endemoniados, finalmente um comentário sobre o [agora já visto] filme .apenas o fim (se o computador não explodir ou algo assim).
Fui lá, afinal, ver o tal filme. As espectativas tanto positivas quanto negativas eram tantas que se anulavam, cheguei lá sem ter a menor idéia se gostaria do filme. O resultado foi a coisa mais estranha possível: todos os comentários recolhidos até então estavam absolutamente certos, os positivos e os negativos. No balanço geral, o filme é bom, tem várias idéias boas, várias referências engraçadas, várias cenas divertidas ou bonitinhas e a idéia geral do filme é muito boa. Por outro lado, a constatação da Bárbara (que tá no blog dela: o link tá aqui do lado, chama “…ou barbárie”) é absolutamente pertinente, a Erika Mader é nada mais que uma cult-bacaninha, supostamente casual, supostamente inteligente, supostamente profunda, supostamente boa atriz. Tem também algumas cenas desnecessárias, piadas um pouco forçadas e uns deslizes em algumas atuações.
A personagem da menina que resolve, por algum conflito interior, abandonar o namorado e ir em bora sem dizer pra onde é o que tem de mais intrigante no filme, a atuação ruim se mistura um pouco com a farsa que é a própria personagem e a gente fica meio sem saber o que era de propósito e o que não era. Ela é aquela menininha rica que estuda na PUC e acha que é muito bonito ser intelectual (às vezes me pergunto se em não fui meio parecida com isso em algum momento da minha vida), que a parada é ver O Sétimo Selo e ter grandes conflitos interiores, sentir que sempre faltou algo em sua vida e querer salvar o mundo, gostar de política e usar óculos de abelha. Não sei se a idéia dos produtores era exatamente essa ou se eles realmente acham ela uma pessoa muito profunda, mas o fato é que a personagem é muito bem construída, se você já conviveu com universitários de cursos meio alternativos você já conheceu alguém parecido. A grande dúvida é saber se a atriz ficou muito bem ou muito mal na personagem. Não conheço a fulana, mas poderia apostar que ela não estava representando nada muito diferente de si mesma, tanto que o filme tem várias cenas muito sinceras onde você vê muito claramente vários casais de amigos. Mas não sou tão má assim com a menina (a personagem, não a atriz), ela é sincera nos seus conflitos, ela de fato deve sofrer por não se encaixar no mundo e deve querer muito de verdade fugir de tudo. Isto talvez seja o que tem de mais genial no filme, ela tem um algo de ridículo, é meio trágico. Tudo nela é clichê, a roupa (a modinha cult), os gostos (“intelectuais”), os comentários. Ela cria pra si mesma a idéia do maior clichê de todos que é o da menina bonita que namora o cara nerd e é a mulher que ele nunca vai esquecer. Ele também vive essa relação assumindo isso, mas ele é diferente, ele não é só uma imagem da modinha, ele é um nerd porque é nerd, meio que porque nasceu assim, ele ama a garota loucamente, mas não precisa inventar uma imagem de um amor que tem que ser assim, ele é romantico porque é romantico. Ela parece que inventa pra si mesma que tem que ser a personagem de um romance e por isso não pode simplesmente ficar feliz onde está, ela tem que ser inquieta. Isto fica óbvio em uma cena quase no final em que ela fala (dessa vez não para ele, só para a câmera) que não poderia mudar de idéia – ela se confronta com a possibilidade de ficar, imagino que por ter passado um dia tão bom com o namorado, mas depois de ter começado a tragédia não poderia simplesmente parar a trama.
Toda essa dualidade da garota que é completamente fake e ao mesmo tempo muito verdadeira porque assume pra si mesma uma imagem de si que é pura imagem me leva a crer que o filme tem um ótimo roteirista, já as atuações e a direção deixam um pouco a desejar. Todas as cenas do casal no quarto conversando sobre banalidades são boas, elas ficaram bem naturais, com exceção, na verdade, de uma ou outra em que forçam muito alguma piada ou referência nerd. Como disse o meu pai, os americanos tem essa coisa de achar que tem que ser engraçado o tempo todo, as pessoas lá ficam contando uma piada atrás da outra. O filme dá algumas escorregadas nuns momentos desses, com piadas meio forçadas demais. Nas cenas que compõe a maior parte do filme tem algumas muito boas, mas a maioria tem apenas potencial para sê-lo. As de conversas sobre assuntos aleatórios ou os encontros casuais no campus (fora o último que foi meio falso) fluem muito bem, mas as mais dramáticas são sofríveis. O ator que faz o nerd-los-hermanos (Gregório Duvivier) esteve bem o filme todo, só teve uma cena em que ele ficou terrível, aquela em que ele chora no banheiro, não convenceu nem um pouco. A garota é que teve algumas atuações bem ruins. Teve cenas em que realmente não dava pra saber se o fake era da personagem ou se era só atuação ruim mesmo, mas nas cenas em que ela supostamente deveria ser mais profunda é que fica claro que tem algo muito errado.
Descontando-se esses probleminhas, o filme cria personagens e situações muito fodamente encontráveis nas nossas vidas de universitários cheios de referências nerds e sensibilidades estranhas. Tanto o casal quanto as pessoas que eles encontram são nossos velhos conhecidos de uff. E o final amarra o filme todo de um jeito incrível. Não ia escrever sobre o final, mas agora deu vontade…
Durante o filme todo fica a dúvida: será que ela vai mudar de idéia e ficar? E no final ela fala uma parada foda (tudo bem que fala com a expressão de quem diz “to indo no cinema” ou algo tão irrelevante quanto) que é a explicação do título do filme, ela diz que aquilo era apenas o fim, que não era importante, que importantes eram as coisas que aconteceram antes. Tá é um grandississísssimo clichê, mas é menos óbvio do que parece e definitivamente quase niguém sabe viver isso. Acaba que o final é meio que uma redenção da personagem, ela tem todo esse drama de quem acha que o mundo é feito de histórias de filmes cult e faz de si mesma uma personagem, mas acaba que ela vive o relacionamento dela de um jeito bonito – ela não estava feliz e terminou com tudo, sem briga, sem o ressentimento daqueles fins mal acabados. O filme deixa uma sensação de “que porra é essa que essa garota tá fazendo?” e o final transforma aquilo tudo em leveza porque foi tudo um processo meio ritual de separação. Não foi aquele término resultado de meses de agonia e rancor, não foi um térmono depois de uma traição. foi um término falado, vivido, não agonizado. Talvez nem seja uma má idéia essa de simplesmente ir em bora depois de uma conversa, afinal o fim nem era pra ser assim tão importante.