Trabalho incompleto

22 de junho de 2009 at 18:28 (Capital)

Como já diz o nome, um trabalho incompleto…

Em sua análise do sistema capitalista de produção, Marx desenvolve categorias que nos permitem compreender toda uma gama de relações sociais aparentemente alheias à esfera da produção propriamente dita, categorias que dizem respeito, contudo, à auto-produção da própria sociedade e dos sujeitos sociais enquanto indivíduos estranhos a essa realidade objetiva à qual se refere sua análise. Muito já se falou sobre a teoria da alienação em Marx, mas, correndo o risco de reinventar a roda, creio não ser totalmente irrelevante colocar novamente em pauta essas categorias que pôe em maior evidência as condições de existência do próprio sujeito social em sua reprodução, não só material, no que comunmente se associa à subsistência física, mas fundamentalmente enquanto ser social.

A categoria pela qual se começa o Capital, como muito já se disse, não é de maneira alguma fortuita. A mercadoria é a grande forma na qual o mundo se apresenta e é a forma pela qual o indivíduo se relaciona com o mundo social. O que nos interessa aqui é justamente esta relação do aparecer, do se apresentar do mundo. Longe de ser uma questão menor, facilmente descartável, a aparência – minimizada pelo senso comum como parte menor da dualidade essência-aparência – é de importância decisiva quando o que está em discussão é uma sociedade fundada na própria separação (entre social e individual, entre indivíduos, entre público e privado, entre trabalho e vida pessoal, entre necessidade e desejo, entre idéia e prática). Num mundo em que tudo é externo em relação ao sujeito, tudo é para o sujeito aparência, ele objetivamente se relaciona com o mundo em primeiro lugar através de sua imagem e ela é, para ele, muito mais forte e material que as relações reais. A imagem é, na verdade, a relação real. Oscar Wilde talvez tenha estado muito mais perto da compreensão do mundo moderno do que se pode pensar à primeira vista quando de suas desconcertantes afirmações de que tudo é forma, o que importa é de fato a aparência.

A mercadoria aparece como relação mais simples e fundamental deste mundo justamente por ser um mundo em que se criam necessidades cada vez mais múltiplas conforme sejam múltiplas as novas possibilidades e subdivisões. Lembremos que “a mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa, a qual pelas suas prpriedades satisfaz necessidades humanas de qualquer espécie.” A criação em moto perpétuo de necessidades, de exterioridades, portanto, é o modo de vida de um sistema de interdependência impessoal e abstrata em que o indivíduo é criado e recriado sempre em formato menor, sempre subordinado a, porque dependente de, uma exterioridade sempre crescente. O indivíduo (qualquer um deles, não só a classe trabalhadora) é dominado porque dependente de necessidades vendidas junto com suas satisfações. Nesse mundo em que tudo é aparência porque é externo, o modo de vida dominante não pode ser nada além da passividade.

Quando lemos trechos destacados dos Manuscritos Econômoco-Filosóficos em que Marx afirma que o trabalhador se depara com o produto do seu trabalho como algo alheio, que não lhe pertence nem lhe diz respeito, podemos tomar o produto do trabalho como aquele objeto produzido individualmente por cada trabalhador. Se pensarmos, contudo, mais além, percebemos que toda a produção social carece de sentido e é alheia à sociedade como um todo. A produção social não é apenas a mercadoria que se compra na loja da esquina ou as grandes máquinas que levam à frente a produção, é literalmente tudo que a sociedade produz nas condições modernas de produção. A produção social é, inclusive, a imagem que se cria e se vende do mundo social. Todo esse mundo, portanto, exterior ao indivíduo (o próprio indivíduo como [encontrar palavra], inclusive) não lhe pertence e sobre aquilo que não se reconhece como seu ou como passível de sofrer sua atuação obviamente não se aje. A passividade é assim a única situação possível diante daquilo que se lhe é alheio.

Link Permanente 1 Comentário

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.